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Publicado em 20 de fevereiro de 2026

A desigualdade não é escolha individual. É estrutura.

No Brasil, milhões de famílias ainda têm direitos básicos negados. Entre desigualdade histórica, estigmas e oportunidades limitadas, a justiça social só avança quando políticas públicas, sociedade civil e negócios se conectam para transformar vidas.


Rafael David

Escrito por Rafael David – rafael@somosumce.com.br
Publicitário especialista em comunicação consciente 


20 de fevereiro de 2026

Neste mês de fevereiro, ao celebrarmos o Dia da Justiça Social, uma pergunta incômoda se impõe: o que significa viver com dignidade no Brasil quando a desigualdade ainda estrutura a vida de milhões de pessoas e o país segue entre os mais desiguais da América Latina?

No cenário global, a desigualdade atinge níveis extremos. Segundo a Oxfam, as 12 pessoas mais ricas do mundo concentram mais riqueza do que os 4 bilhões mais pobres do planeta. O Brasil não está fora dessa lógica: o 1% mais rico detém cerca de 27,4% de toda a renda nacional, evidenciando como a concentração de riqueza também estrutura as desigualdades no país. Foi a partir desse contexto que conversei com Talícia Dantas, assistente social da Somos Um, que trouxe reflexões sobre desigualdades e justiça social. 

“A concentração de renda não é só um dado econômico, é um projeto de sociedade. Quando poucos acumulam demais, a maioria passa a sobreviver com o mínimo, tendo que trocar dignidade por resistência todos os dias.”

— Talícia Dantas

Benefícios sociais e o impacto concreto na vida das famílias

No Brasil, os benefícios sociais têm um papel decisivo para reduzir desigualdades e garantir o mínimo de dignidade a milhões de famílias. Dados da Pnad Contínua, do IBGE, mostram que, em 2024, cerca de 20,1 milhões de pessoas, o equivalente a 9,2% da população receberam algum tipo de benefício social, como o Bolsa Família ou o Benefício de Prestação Continuada. Esses programas funcionam como uma rede de proteção essencial, sobretudo para quem vive em situação de pobreza e vulnerabilidade.

No Nordeste, esse apoio é ainda mais importante. Segundo o IBGE, a renda proveniente de programas sociais representa 9,4% do rendimento domiciliar na região, acima da média nacional, refletindo desigualdades históricas e a menor oferta de oportunidades econômicas. Dados oficiais indicam que mais de um terço dos lares nordestinos conta com ao menos um beneficiário de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, percentual bem superior ao de outras regiões do país.

O estigma dos benefícios sociais no Brasil

Estudos do Datafolha e do IPEA mostram que, à medida que a renda e a escolaridade aumentam, cresce a percepção de que programas como o Bolsa Família “desestimulam o trabalho” ou criam dependência do Estado, além da crítica recorrente de que os benefícios teriam alto custo fiscal e seriam financiados de forma injusta por quem “paga impostos”. Essa visão também aparece em análises de economistas que olham apenas para números e em editoriais de veículos da grande imprensa, que defendem que políticas sociais deveriam priorizar apenas ações de geração de emprego e crescimento econômico, e não transferências diretas de renda.

“O direito de viver com tranquilidade e segurança ainda está distante para grande parte da população. Benefícios sociais ajudam a suprir necessidades imediatas, mas ainda são tratados com estigma, como se fossem favores e não direitos. Em alguns casos, chegam até a ser criminalizados, o que reforça a desigualdade estrutural presente no dia a dia.”

— Talícia Dantas

O papel das políticas públicas estruturantes

Justiça social passa, necessariamente, por políticas públicas consistentes e integradas. A assistência social, a educação, a saúde, incluindo a saúde mental, a habitação, o saneamento, o emprego e a geração de renda formam a base da cidadania.

“Quando essas políticas não dialogam entre si, famílias são encaminhadas de um serviço para outro, sem que suas demandas sejam resolvidas de forma integral. A falta de articulação intersetorial provoca revitimização, sobrecarga e ineficiência do Estado”

— Talícia Dantas

A atuação da sociedade civil

Em contextos marcados por desigualdades profundas, as organizações da sociedade civil assumem um papel estratégico na promoção da justiça social. São elas que sustentam a presença contínua nos territórios, constroem relações de confiança com as comunidades e desenvolvem soluções que dialogam diretamente com a realidade local. 

“Essas iniciativas chegam aonde o Estado não consegue, constroem confiança, inovam metodologias e realizam mediação com as políticas públicas. Mas enfrentam desafios como financiamento instável, rotatividade de profissionais e dependência de projetos de curta duração, sem garantia de continuidade.”

— Talícia Dantas

Negócios sociais e impacto positivo nos territórios 

Nos últimos anos, os negócios sociais e de impacto têm ganhado força como caminhos para enfrentar desigualdades estruturais. Ao combinar sustentabilidade econômica com propósito social e ambiental, essas iniciativas geram renda, criam soluções para problemas reais e contribuem para o fortalecimento da autonomia nos territórios. 

“Negócios sociais têm papel importante ao criar soluções sustentáveis para problemas sociais e fortalecer autonomias locais. Para escalar sem perder vínculo com o território, precisam manter escuta ativa, participação comunitária e compromisso com a realidade local.”

— Talícia Dantas

Empresas, territórios e corresponsabilidade

O diálogo real entre empresas e territórios exige mais do que ações pontuais ou estratégias de visibilidade. Ele pressupõe presença contínua, compreensão das dinâmicas locais e disposição para compartilhar responsabilidades. Quando iniciativas empresariais se constroem a partir da escuta ativa e do compromisso com o território, elas fortalecem redes locais, ampliam capacidades e geram impactos sociais mais consistentes e duradouros. 

“O diálogo entre empresas e territórios precisa ir além do marketing social. Quando existe escuta, corresponsabilidade e compromisso contínuo, fortalece redes locais e gera impacto real.”

— Talícia Dantas

Caminhos para o futuro: cultura, institucionalidade e continuidade

Para que a justiça social deixe de ser apenas discurso e se torne prática cotidiana, são necessárias mudanças culturais que combatam estigmas, fortalecimento institucional das políticas públicas, maior articulação intersetorial e garantia de participação social.

“Garantir direitos de forma contínua exige mudanças culturais, fortalecimento das políticas públicas e articulação intersetorial. Direitos não podem depender de iniciativas isoladas ou de boas intenções passageiras.”

— Talícia Dantas

Se sabemos que a desigualdade é estruturada, que direitos básicos ainda não chegam a milhões de brasileiros e que benefícios sociais são tratados como favores, a pergunta é: até quando vamos aceitar que viver com dignidade continue sendo privilégio de poucos?

Rafael