Publicado em 26 de fevereiro de 2026
Em Fortaleza, no Ceará, o Brechó Segundo Ato mostra que negócios sociais podem ir além da arrecadação: ao combinar economia circular, educação e geração de renda, transforma consumo em impacto e justiça social em prática concreta.

Escrito por Rafael David – rafael@somosumce.com.br
Publicitário especialista em comunicação consciente
26 de fevereiro de 2026

Sustentabilidade financeira é, historicamente, um dos maiores desafios para que as OSCs consigam realizar seu propósito de forma contínua. Os negócios sociais surgem como um caminho para que essas organizações conquistem independência financeira sem deixar de lado sua missão. Ao unir propósito, geração de receita e impacto real nos territórios, esses negócios propõem soluções para problemas como a desigualdade, a exclusão produtiva e a degradação ambiental. Aqui em Fortaleza, no Ceará, um negócio social tem materializado essa potência de forma concreta.
Conversei com Dora Andrade, fundadora da EDISCA, que ao longo de 35 anos já envolveu quase 3 mil crianças e adolescentes em seus programas formativos e impactou mais de 330 mil pessoas com espetáculos no Brasil e no exterior. Ela também criou o Brechó Segundo Ato, um negócio social que transforma a economia circular em estratégia de geração de renda e impacto socioambiental.
“O Brechó Segundo Ato nasceu da necessidade de ampliarmos as perspectivas de sustentabilidade e, com isso, reduzirmos a dependência institucional dos financiamentos tradicionais, cada vez mais escassos.”
— Dora Andrade
Sustentabilidade institucional e autonomia econômica como enfrentamento das desigualdades estruturais
A criação do Brechó Segundo Ato não representa um desvio da missão original da EDISCA, mas uma extensão coerente dela. Ao longo de sua história, a organização já havia experimentado diferentes estratégias de geração de receita própria como a comercialização de espetáculos, lojas pop-up e bazares beneficentes. Embora relevantes, essas ações se mostraram insuficientes para garantir estabilidade financeira de longo prazo.
O brechó, diferentemente, nasceu já estruturado, em julho de 2024, como negócio social, com gestão profissional, plano de negócio, incubação especializada pela Somos Um e visão de escala. Seu sentido de existir não é apenas arrecadar recursos, mas contribuir para a redução de problemas sociais e ambientais, ao mesmo tempo em que gera trabalho, renda e aprendizado institucional.
Essa lógica rompe com a ideia de que justiça social se constrói apenas por meio de ações assistenciais ou compensatórias. No Segundo Ato, a geração de impacto está diretamente conectada à produção de valor econômico.
“Uma das etapas de implementação do nosso projeto consiste no envolvimento das mães da EDISCA. Estas são selecionadas, capacitadas e recebem gratuitamente todas as peças que não passaram na curadoria do Segundo Ato para comercializarem em suas comunidades de origem.”
— Dora Andrade
Ao incluir mães de alunos da EDISCA na cadeia do negócio, o Brechó Segundo Ato atua sobre um dos núcleos mais sensíveis da desigualdade: o acesso ao mundo produtivo. Em vez de ações pontuais de transferência de renda, o projeto aposta na ampliação de capacidades, no fortalecimento da autonomia e na construção de trajetórias econômicas mais sustentáveis.
Educação como base da justiça social
Para Dora Andrade, justiça social passa necessariamente pela educação, não apenas como escolarização formal, mas como um processo mais amplo de formação humana, cidadã e produtiva. A inclusão econômica, segundo essa visão, só se sustenta quando acompanhada do desenvolvimento de habilidades e da ampliação da consciência sobre direitos, deveres e pertencimento social.
Essa perspectiva orienta tanto a atuação histórica da EDISCA quanto as escolhas estratégicas do Brechó Segundo Ato.
“Quando penso em justiça social considero de imediato a questão do acesso e permanência daquelas pessoas que estão em situação de vulnerabilidade ao mundo produtivo. Esse acesso só se dá através da educação, mas não qualquer educação. Me refiro a um processo educativo que contemple a ampliação de habilidades e da consciência cidadã.”
— Dora Andrade
Consumo, espaços tradicionais e mudança cultural
A presença do brechó em espaços tradicionalmente associados ao consumo convencional, como shoppings centers, também carrega um significado simbólico importante. Ao ocupar esses territórios, o Segundo Ato tensiona narrativas sobre valor, status e descarte, ainda que os impactos mais imediatos estejam concentrados no campo ambiental.
“Em minha percepção as ações externas do brechó têm contribuído mais para reflexões no campo ambiental.”
— Dora Andrade
Essa estratégia dialoga com um público que, muitas vezes, está distante das pautas sociais, mas começa a se aproximar do consumo de segunda mão por razões econômicas ou estéticas, uma porta de entrada para reflexões mais profundas.
Parcerias como alavancas de impacto
Desde sua concepção, o Brechó Segundo Ato tem se apoiado em uma rede diversa de parceiros, como agências de comunicação, arquitetos, empresas doadoras de materiais, estilistas, escolas e empreendedores locais. Essas articulações mostram que negócios sociais não se constroem de forma isolada, mas em ecossistemas colaborativos.
Ainda assim, Dora aponta a necessidade de amadurecer e qualificar essas relações, para que o engajamento empresarial vá além do apoio pontual.
“Mesmo percebendo o engajamento de muitos empresários junto às causas socioambientais, considero que ainda temos que avançar no sentido de ampliarmos e qualificarmos esses relacionamentos.”
— Dora Andrade
Mudando narrativas sobre consumo e responsabilidade
O crescimento do mercado de segunda mão é um fenômeno global, impulsionado principalmente pelo acesso a produtos de qualidade a preços mais baixos. No entanto, transformar essa tendência em consciência social e ambiental ainda é um caminho em construção.
“Acredito que a principal razão desse crescimento seja o acesso a itens de alta qualidade a preços baixos e não, necessariamente, por afinidade com as causas socioambientais.”
— Dora Andrade
Nesse sentido, o Brechó Segundo Ato atua como um agente de transição: entre o consumo motivado apenas pelo preço e um consumo mais consciente, informado e responsável.
Um segundo ato possível
O Brechó Segundo Ato mostra que a justiça social precisa ser construída também a partir de modelos econômicos inovadores. Ao articular educação, renda, sustentabilidade financeira e responsabilidade ambiental, o projeto aponta para um futuro em que organizações sociais não apenas sobrevivem, mas se fortalecem como protagonistas de novas economias, mais justas e inclusivas.
Saiba mais sobre a Edisca e o Brechó Segundo Ato:
Instagram Edisca: @edisca
Instagram Brechó Segundo Ato: @estilosegundoato