Publicado em 13 de janeiro de 2026
Durante décadas, o capitalismo impulsionou crescimento e inovação, mas também concentrou poder, ampliou desigualdades e pressionou pessoas, territórios e o planeta. Hoje, a questão não é apenas quanto a economia cresce, mas a serviço de quem ela cresce e que futuro estamos construindo juntos.

Escrito por Rafael David – rafael@somosumce.com.br
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13 de janeiro de 2026

O capitalismo, como sistema econômico dominante no mundo, foi capaz de impulsionar crescimento, inovação e aumento de produtividade. No entanto, os dados globais mostram que esse mesmo sistema, quando orientado prioritariamente pela lógica do lucro e da acumulação, também produz distorções profundas que afetam pessoas, territórios e o planeta.
Um dos problemas mais evidentes é a concentração extrema de riqueza. Hoje, uma parcela muito pequena da população mundial controla uma fatia desproporcional de tudo o que é produzido. Enquanto os 10% mais ricos detêm cerca de 75% da riqueza do mundo, metade da humanidade divide apenas 2% dessa riqueza.
Essa concentração não é apenas econômica. Ela se transforma em poder político, capacidade de influência e controle sobre decisões que moldam a vida de milhões de pessoas. Quando isso acontece, caminhos se fecham: a mobilidade social diminui, a democracia se fragiliza e desigualdades históricas, como o preconceito racial e de gênero e o acesso desigual à educação, à saúde, à moradia digna, à água, ao trabalho e à renda, se perpetuam ao longo das gerações.
Mesmo em países considerados ricos, a renda cresce de forma acelerada para quem já está no topo, enquanto os salários da maioria permanecem estagnados. O trabalho, que deveria garantir dignidade, passa a não ser suficiente para assegurar uma vida estável.
Milhões de pessoas que estão empregadas vivem em constante insegurança econômica, sem acesso pleno a bens e serviços essenciais. Assim, o capitalismo segue produzindo riqueza, mas falha em garantir que essa riqueza se traduza em dignidade para todas as pessoas.
Outro impacto estrutural desse modelo é a precarização do trabalho. A pressão constante por reduzir custos e aumentar lucros enfraquece direitos, amplia a informalidade e torna os vínculos de trabalho cada vez mais frágeis. Nesse contexto, a tecnologia, que poderia facilitar a vida das pessoas e ampliar o bem-estar, é frequentemente usada para acelerar ritmos, substituir trabalhadores sem garantir proteção social e concentrar ainda mais os ganhos.
No campo ambiental, os efeitos também são alarmantes. O modelo capitalista baseado em crescimento contínuo e consumo ilimitado entra em choque direto com os limites do planeta. Uma pequena elite global responde por uma parcela desproporcional das emissões de carbono, enquanto os impactos da crise climática recaem sobretudo sobre populações vulneráveis, que menos contribuíram para o problema.
Desmatamento, perda de biodiversidade, poluição e mudanças climáticas não são falhas pontuais, mas consequências de um sistema que transforma natureza em recurso a ser explorado até a exaustão.
Falar sobre os problemas do capitalismo não é negar os avanços que ele trouxe, mas reconhecer com honestidade os seus limites. Os dados mostram que, quando o sistema opera sem responsabilidade social e ambiental e sem uma revisão profunda de valores, ele tende a ampliar desigualdades e a produzir crises cada vez mais frequentes.
O grande desafio do nosso tempo não é apenas gerar riqueza, mas fazer escolhas conscientes sobre a serviço de quem e de que essa riqueza será colocada.
O capitalismo que estrutura a economia atual foi construído, em grande parte, a partir de uma lógica associada à energia masculina: foco em eficiência, competição, crescimento contínuo, produtividade e conquista de resultados. Essas características tiveram um papel importante no avanço econômico e tecnológico ao longo do tempo.
No entanto, quando essa energia se torna predominante e não encontra equilíbrio, tende a favorecer o fazer constante sem pausa, o acumular sem partilha e a busca por resultados mesmo quando isso gera exclusões, pressões excessivas ou o esgotamento de pessoas e territórios.
A nova economia que somos chamados a construir não propõe a negação desse legado, mas a sua ampliação. Ela convida à integração da energia do feminino, que acrescenta qualidades igualmente essenciais: cuidado, cooperação, escuta, sensibilidade aos ciclos, visão de longo prazo, interdependência, regeneração e compromisso com a vida.
O feminino não se opõe à eficiência nem à realização. Ele lembra que prosperar também é nutrir, sustentar, incluir e preservar.
Mas quais são as características da economia que a gente precisa e quer construir?
A economia que queremos é aquela que reconhece que crescimento econômico, justiça social e equilíbrio ambiental, caminham juntos. Isso significa criar condições para que a riqueza gerada circule, fortaleça territórios, amplie oportunidades e reduza desigualdades estruturais.
A economia que queremos construir precisa ser, antes de tudo, inclusiva. Isso significa reconhecer, valorizar e criar oportunidades para mulheres, pessoas negras, pessoas LGBT+, povos indígenas e comunidades tradicionais, que historicamente sustentaram a sociedade com seu trabalho, seus saberes e seus cuidados, mas quase nunca participaram das decisões econômicas.
Uma economia inclusiva respeita os territórios, fortalece as economias locais e reconhece a sabedoria popular como conhecimento legítimo, essencial para soluções mais justas e sustentáveis. Além de gerar oportunidades, essa economia garante voz, poder de decisão e distribuição de recursos para quem sempre esteve à margem do sistema.
No mundo do trabalho, essa nova economia precisa colocar as pessoas no centro das decisões. Relações de trabalho mais estáveis, proteção social e valorização do trabalho humano não impedem o desenvolvimento, pelo contrário, tornam a sociedade mais forte e preparada para enfrentar crises.
A tecnologia, nesse contexto, deve ser usada para melhorar a qualidade de vida, reduzir jornadas excessivas e qualificar o trabalho, e não para gerar mais insegurança, substituir pessoas sem proteção ou concentrar ainda mais renda.
Do ponto de vista ambiental, a economia que queremos precisa romper com a lógica do crescimento a qualquer custo. Produzir e consumir devem estar alinhados à capacidade real do planeta de se regenerar.
No centro dessa mudança está uma revisão profunda de valores. A economia que queremos não mede sucesso apenas pela quantidade de riqueza gerada, mas pela sua capacidade de garantir vidas dignas, reduzir desigualdades e preservar as condições que tornam a vida possível.
Lucro e impacto positivo podem caminhar juntos, mas o impacto não pode ser algo secundário ou tratado como um efeito colateral do sistema econômico.
Os negócios de impacto surgem como uma das respostas mais concretas na nova economia. Eles operam no mercado, geram receita e utilizam a lógica empresarial, mas têm como objetivo central a solução de problemas sociais e ambientais. O lucro, quando existe, não é um fim em si mesmo, mas um meio para ampliar impacto, fortalecer territórios e garantir sustentabilidade de longo prazo.
Mas será que isso é possível? Alguém já faz isso no mundo?
A resposta é sim.
Esses caminhos já estão sendo trilhados por iniciativas concretas, no Brasil e no mundo, que mostram que é possível organizar a economia de outra forma, colocando o capital, a tecnologia e o trabalho a serviço da vida e do meio ambiente.
No Brasil, o Programa Zunne é um exemplo de como o capital pode ser redesenhado para reduzir desigualdades estruturais. Atuando especialmente nas regiões Norte e Nordeste, historicamente com menos acesso a investimentos, o Zunne mobiliza recursos para fortalecer negócios de impacto, com prioridade para aqueles liderados por mulheres, pessoas negras e indígenas. Mais do que investir, o programa oferece acompanhamento, capacitação e conexões, mostrando que financiar também é cuidar, fortalecer e criar condições para que os negócios gerem impacto social e ambiental duradouro em seus territórios.
Outra frente inspiradora é a Robótica Sustentável, iniciativa de Fortaleza que une educação tecnológica e responsabilidade socioambiental. O negócio utiliza a robótica como ferramenta de aprendizagem para jovens e comunidades, combinando educação, inovação e sustentabilidade. Por meio do uso de sucata eletrônica e de ambientes colaborativos, os participantes desenvolvem protótipos e soluções tecnológicas enquanto aprendem sobre reaproveitamento de resíduos, consumo consciente e cuidado com o meio ambiente.
Já o Giardino Buffet revela o potencial dos negócios sociais urbanos. Atuando no Grande Bom Jardim, em Fortaleza, o empreendimento utiliza a gastronomia como ferramenta de inclusão social, geração de renda e cuidado comunitário. Todo o lucro do negócio é revertido para ações sociais ligadas à saúde mental e ao fortalecimento da comunidade, mostrando que o sucesso econômico também pode ser medido pela capacidade de cuidar, acolher e transformar realidades locais.
No cenário internacional, a Patagonia se tornou uma referência global de que empresas podem ser lucrativas sem renunciar à responsabilidade ambiental e social. Ao adotar práticas de economia circular, transparência na cadeia produtiva, uso de materiais reciclados e a doação permanente de parte de seu faturamento para causas ambientais, a empresa desafia a lógica do consumo descartável e reforça a ideia de que produzir menos, melhor e com consciência também é uma forma de prosperar.
Outro exemplo emblemático de como modelos econômicos orientados ao impacto social podem transformar vidas é o Grameen Group, criado por Muhammad Yunus em Bangladesh. A partir do Grameen Bank, fundado em 1983, o grupo oferece microcrédito e serviços financeiros sem a exigência de garantias tradicionais, com base na confiança e na organização comunitária. Hoje, cerca de 10 milhões de pessoas são atendidas, majoritariamente mulheres.
Com atuação em dezenas de milhares de vilarejos e iniciativas nas áreas de saúde, educação, energia renovável e negócios sociais, o modelo Grameen demonstra que é possível escalar soluções econômicas que fortalecem a autonomia, reduzem desigualdades e beneficiam milhões de pessoas.
Esses são apenas alguns exemplos que mostram que a nova economia não é uma utopia distante. Ela já existe, em múltiplas escalas e formatos. O que todas essas iniciativas têm em comum é a compreensão de que o lucro não pode ser o único norte e que a economia precisa gerar valor compartilhado, fortalecer territórios, reduzir desigualdades e respeitar os limites do planeta.
Construir essa nova economia não é uma tarefa abstrata nem distante. É uma escolha coletiva, feita todos os dias, sobre como produzimos, investimos, consumimos e decidimos.
A pergunta é: a serviço de quem queremos colocar a economia?
A resposta para essa pergunta define o tipo de sociedade que estamos dispostos a construir.